Preconceito

Preconceito

Engana-se quem acredita que o preconceito no Brasil é algo novo.

Quando eu tinha apenas 10 anos de idade, minha família precisou se mudar para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, por questões profissionais. O estado é apaixonante, inebriante e extremamente belo. Por lá eu vivi por cinco bons anos. Conheci pessoas de outras nacionalidades pela primeira vez, aprendi a gostar de futebol indo ao estádio e me tornei adepto do Sport Club Internacional. Descobri como a mulher gaúcha é bela e tive minha primeira namorada. Dei meu primeiro beijo, fui ao meu primeiro show de Rock sozinho. Foi lá que eu descobri os prazeres da vida, da adolescência. Mas nem tudo foram flores. Pois também foi no sul que eu conheci o preconceito, a discriminação, o ódio.

No fim dos anos 80, para uma família sem posses como a minha, viajar para estados como os do sul era realmente como ir morar em outro país. Havíamos há pouco saído da ditadura. A constituição estava sendo votada naquele ano. A nação fervilhava com os efeitos do “Diretas já!”. E aí você imagina que com um objetivo tão claramente beneficiário a todos, o sentimento era de união, não é? Infelizmente não. Não é. Eu, jovem, de família humilde e nordestino, em um estado no qual crescia a ideia de supremacia, de separatismo. Hoje o Rio Grande do Sul sofre com o resultado de gestões equivocadas de décadas. Mas na época, era um estado pujante, forte e rico. Por isso, talvez, o sentimento segregacionista em relação à nação. Eu senti na pele. Ouvi impropérios sobre o Nordeste, sobre o negro, que muita gente ainda hoje acha que é lenda. Mas não, meu amigo. Não é. Nunca foi!

Apesar de tudo, logicamente toda regra tem sua exceção. Conheci pessoas maravilhosas, me apaixonei – mesmo com o preconceito – pelo estado. Até hoje acompanho e consumo notícias da região. Retornei à Bahia com saudade na mala, mas também – confesso – alívio. E ao chegar, uma constatação: O mundo não seria mais o que eu deixara para trás. Minha percepção mudou, meus horizontes se ampliaram. Minha alma evoluiu. Passei a enxergar realmente a beleza da nação brasileira e sua diversidade. Como era fantástico em um mesmo país existir um estado tão branco e europeu como o Rio Grande do Sul e um estado tão negro e africano como a Bahia. Apesar de ter crescido na Soterópolis, nunca havia enxergado Salvador com estes olhos. Mas assim como antes, nem tudo são flores. Constatei o preconceito do soteropolitano com os outros povos da região. A discriminação com o baiano do interior, o sertanejo sofrido. Mas a pior percepção de todas, foi o que eu chamo de preconceito às avessas. O preconceito que parte do negro.

O outro lado da moeda

Imaginem a minha decepção ao entender que havia defendido o meu povo por 5 anos nas trincheiras mais sujas do preconceito para chegar em casa e sofrer do mesmo mal, perpetrado por aqueles que eu defendi. Foi extremamente chocante. Porém, também assim como antes, foi elucidador. Pois neste momento eu entendi uma verdade absoluta que só hoje com a liberdade – e o anonimato – das redes sociais a nação está se dando conta: O Brasil é um país de preconceituosos. Eu diria que um dos piores do planeta. Por aqui existe preconceito se você é negro, se você é pobre, se você é rico, se você é asiático, se você é gordo, se você é magro, se você nasceu em determinada região, se você gosta de pessoas do mesmo sexo, se você torce para determinada bandeira. Ou seja, o principal esporte do brasileiro não é o futebol. É o julgamento! Julgar o próximo é o que o brasileiro mais gosta de fazer. Não existe compaixão, ou ao menos ela é muito pouco praticada. No fundo tudo que você está vendo, lendo e ouvindo na mídia oficial e – principalmente – nas redes sociais é apenas a externação de algo que sempre existiu.

Podemos debater sobre como chegamos a este ponto. Para mim é muito claro. A influência da cultura americana no modo de vida brasileiro. Basta assistir filmes ou séries com um núcleo negro para se perceber que, por lá, o próprio negro responde ao preconceito sendo preconceituoso. Um dos melhores filmes do Bruce Willis tocou nesta questão. Duro de Matar 3. Na obra vemos o Samuel L. Jackson interpretando um negro do Harlem extremamente preconceituoso. E em determinado momento, o personagem de Bruce Willis o questiona diretamente, taxando-o de racista e deixando-o surpreso

Contudo, os americanos que lidem com seus problemas sociais. É outra cultura, outra história, são outras barreiras e concepções. Por aqui, precisamos em primeira mão perceber que não existem mocinhos nas polarizações. Todos pensam primeiro em si. O egoísmo é o alicerce da discriminação. E assim como um enfermo, só será possível obter a cura se realmente quisermos. E para isso, temos que fazer a nossa parte.

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